As irmãs da Cinderela

Toni Morrison (Lorain, 18 de fevereiro de 1931) é uma escritora, editora e professora estadunidense. Recebeu o Nobel de Literatura de 1993, por seus romances fortes e pungentes, que relatam as experiências de mulheres negras nos Estados Unidos durante os séculos XIX e XX.

 

Vou começar levando vocês de volta no tempo. Lá atrás, bem antes da época da
Faculdade. Para o maternal, provavelmente. Para aquele “era uma vez” em que você ouviu,
leu, ou imagino, mesmo assistiu “Cinderela”. Porque é sobre ela, Cinderela, que quero
conversar. E porque é Cinderela que me causa um sentimento de urgência. O que me
inquieta sobre esse conto de fadas é que ele fala essencialmente da história de uma casa –
um mundo, se você preferir- em que mulheres se uniram, e se mantiveram unidas, para
serem abusivas com outra mulher. Há na história, também, um pai quase ausente e um
príncipe de última hora com fetiche por pés. Mas nem um dos dois tem lá muita
personalidade. E há, também, as “mães” adotivas (a madrinha e a madrasta), que vão
contribuir para a tristeza e para a libertação e felicidade de Cinderela. Mas são suas irmãs
as que mais me interessam. Quão desabilitante deve ter sido para aquelas jovens crescer
com uma mãe como aquela, a assistindo e imitando, na escravização de outra menina.
Permaneço curiosa sobre como seguiram seus destinos depois que a história termina. Ao
contrário das recentes adaptações, as irmãs de Cinderella não eram feias, não eram
meninas desajeitadas e estúpidas com pés grandes . A coleção dos imãos Grimm as
descreve como “claras e belas na aparência”. Quando somos apresentados a elas, são
mulheres lindas, elegantes, de status e, claramente, mulheres de poder. Tendo assistido e
participado do domínio violento de outra mulher, serão elas menos cruéis quando for sua
vez de escravizar outras crianças, ou mesmo quando forem chamadas a tarefa de cuidar de
sua própria mãe?
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E este não é um problema intrinsecamente medieval. É até bastante contemporâneo: o
poder feminino quando dirigido para outras mulheres historicamente foi empunhado de uma
forma comumente descrita como “masculina”.
Em breve você estará em posição de fazer o mesmo. E, seja qual for o seu contexto social,
rico ou pobre, seja qual for a tradição educacional de sua família – cinco gerações de
formados ou uma – desfrutando do que lhe é disponível aqui em Barnard, você terá, por
consequência, ambos os status -, econômico e social- das irmãs de Cinderella, e você terá
poder.1
Eu não quero perguntar , quero conclamar vocês a não participar da opressão de suas
irmãs. Mães que abusam de seus filhos são mulheres; e outra mulher, não uma agência,
deverá que estar disposta a pará-las. Mães que atearam fogo aos ônibus escolares são
mulheres; e outra mulher, não uma agência, quem terá que dizer a eles para parar.
Mulheres que impedem a promoção profissional de outras mulheres são mulheres, e outra
mulher deve vir em auxílio dessas vítimas. Assistentes sociais e de auxílio humanitário que
humilham seus atendidos podem ser mulheres; e outras colegas mulheres têm que desviar
esta raiva para outro objeto.
Ando assustada com a violência que as mulheres praticam uma com o outras: violência
profissional, violência competitiva, violência emocional. Assustada com a vontade dessas
mulheres em escravizar outras mulheres. Estou assustada com a crescente falta de
decência no mundo do trabalho das mulheres. Você é a mulher que ocupará um lugar no
mundo, onde você decidirá quem deve florescer e quem deve definhar; você fará a distinção
entre os pobres que merecem e os que não merecem ajuda; uma posição em que você
determina qual vida é descartável, e qual é indispensável. Quando lhe é dado o poder de
fazer essas distinções, você pode ser convencida de que tem o direito de fazê-lo. Como
mulher intelectualizada, a distinção entre os dois, -poder fazer, e ter direito a fazê-lo-, é
preocupação de primeira ordem.
Estou sugerindo que se preste tanta atenção às nossas crescentes sensibilidades, quanto à
nossa ambição. E Você está se movendo para a liberdade e a função da liberdade é libertar
outras pessoas. Você está caminhando para a auto realização, e a consequência dessa
caminhada deve ser descobrir que há algo tão importante quanto você em jogo; e que este
algo tão importante pode ser justamente a Cinderela – sua meio-irmã.
Na sua viagem pelo arco-íris para a realização de pessoal, o objetivo é não fazer escolhas
com base apenas na sua segurança e no seu bem estar. Nada é de fato seguro. E isso não
quer dizer que nada nunca tenha sido, ou que nada mereça o trabalho de atingir essa
segurança. Coisas que valham a pena são raras. Não é seguro ter filhos. Não é seguro
desafiar o status quo. Não é seguro escolher fazer o que nunca foi feito. Ou fazer o velho de
uma forma nova. Sempre haverá alguém lá para pará-la. Mas ao perseguir suas mais altas
ambições, não deixe sua segurança pessoal diminuir a segurança de sua irmã. Ao pôr as
1 Este é um discurso feito por Morrison no Barnard College’s em 1979, durante o movimento de
libertação de mulheres. Barnard é um colégio feminino de Nova York onde se formam muitas
assistentes sociais e trabalhadoras do serviço público de assistência e Welfare.
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mãos no poder que é seu por direito, não permita que ele escravize suas irmãs. Deixe seu
poder e seu potencial emanarem desse lugar especial em você que que está sendo criado e
nutrido.
Os direitos das mulheres não são apenas uma abstração, uma causa; são também assunto
pessoal. Não se trata apenas de “nós”; também do eu e você. Aqui, entre nós duas.
Fonte: http://www.mrspsela.com/uploads/2/1/8/7/21879712/cinderellastepsisters.pdf
Tradução: Sueli Feliziani dos Santos
Projeto Bibliopreta

 

As irmãs de Cinderela