Uma questão bastante difundida entre intelectuais negras e negros brasileiros é o Epistemicídio. Consiste no apagamento do conhecimento, da tecnologia, da história, da cultura negra no Brasil.

Na História, isso é visto principalmente na construção de narrativas que omitem ou diminuem o papel das populações negras no curso da história brasileira, tornando-a invisível. Um exemplo é que todos nós pintamos figuras da Princesa Isabel ou lemos textos sobre a Lei Áurea, mas muito poucos de nós sabemos que existe toda uma discussão historiográfica que defende o papel fundamental que as revoltas escravas e do medo que a Revolução do Haiti causava na elite brasileira. Não aprendemos que, nos movimentos negros, os meios de comunicação sempre foram uma ferramenta aliada: seja nos bilhetes passados furtivamente nas ruas, como na Revolta dos Males, na imprensa independente ao longo do século XX ou na produção de textos desenfreada na era da Internet.
É por causa desse apagamento que, mesmo entre militantes negros, é difícil achar referências posteriores à escravidão. Na história, nós só existimos como escravos.

Mesmo quando estamos em um nicho, como a história do Feminismo, ignoramos a participação das mulheres negras desde o início e assumimos que elas apareceram do nada posteriormente, depois que o movimento ganhou força. Pouco se fala da importância dos movimentos de mulheres, dos conflitos, do fato que as mulheres negras estavam presentes desde o começo.

Na história, o Epistemicídio apaga nossas trajetórias e estratégias de resistência. Mas, felizmente, tem bastante gente quebrando essas “histórias oficiais” e fazendo uma discussão legal por aí. A gente não precisa se contentar com essa coisa que aprendemos na escola.

Eu sei que nós, historiadores, temos a fama de escrever mal, mas procurem ler sobre a história negra. Recomendo começar pelo O Saber do Negro, do Joel Rufino dos Santos. É uma boa introdução, dividido por capítulos temáticos e tem várias referências bacanas do fim de capítulo.

Não é por acaso que repetimos que nossos passos vem de longe.

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